sexta-feira, 20 de junho de 2008

A Revolta dos Gabões [3]


Como prometido, vou tentar transcrever a Crónica da autoria do PE. (DR.) JOSÉ RIBEIRO CARDOSO, intitulada:


“A REVOLTA DOS GABÕES”
Editada no “MENSAGEIRO DE ALMACEDA” em 23 de Fevereiro de 1961


“Um motim à 68 anos, Almaceda em reboliço. Mais de mil gabões ambulantes em manhã de nevoeiro. O assalto a Repartição da Fazenda do concelho de S. Vicente da Beira. A queima dos cadernos das novas matrizes prediais e o mais que nesta resumida notícia se dá.

O escrivão de Fazenda do concelho de S. Vicente da Beira, António Ribeiro, recebera ordem para fazer a cobrança da contribuição predial pelas novas matrizes.
Distribuidos os avisos das colectas a pagar, o povo serrano da freguesia de Almaceda, aferrado ao cultivo da leira que mal lhe dava para a côdea de cada dia, sentiu ímpetos de revolta mal contida ao saber que as contribuições vinham aumentadas em dobro e mais ainda.
Aos domingos, depois da Missa conventual, a que concorria toda a gente da freguesia, no adro da igreja não se falava noutra coisa.
Esfusiavam os lavitres;
- Não paga ninguém, acabou-se a justiça que venha para cá que há-de levar que contar. Mas, logo, Almeida Afonso, (O Maneiritas), de Valbom, o mais abastado proprietário da charneca, aconselhava prudentemente: - Nada disso – com os homens da justiça lá do campo não queremos pegas. O remédio tem de ser outro – e cochichava aos principais o que se devia fazer.
E todos aceitaram o alvitre, a sorrir, contentes, decididos.
E a todos recomendava – agora, bico calado, pois se os de S. Vicente desconfiam, pilham-nos na ratoeira mandando vir tropa de Castelo Branco.
Em 23 de Janeiro de 1893, Almeida Afonso, na sua casa de Valbom, não se deitou parecia-lhe que os ponteiros do relógio não andavam. Nervoso, ia e vinha da janela, aborrecido, por lhe parecer que já passava a hora para a revolta estalar. Afinal aos ouvidos chegaram-lhe os primeiros sons do busio assoprado para os lados do poente. Depois percebia-se que de todos os lugares da serra o busio tocava a reunir, num mugido doloroso que fazia calafrios naquela hora morta da noite.
A gente de Valbom reunira em volta da casa do Afonso e este comandava: rapazes, vamos com Deus!
Às duas horas da manhã Almaceda estava em reboliço. O mulheredo das duas aldeias à janela com candeias de azeite, alumiavam os que vinham por todas as veredas da serra, armados de varapaus e roçadoiras.
Havia no ar uma confusão diabólica de sons – gritos alegres de rapaziada nova, mugidos prolongados dos busios que não cessavam de tocar, vozes estridentes de raparigas a chamar pelos namorados, assobios o rufar lento do tambor do Espírito Santo.
- Estão todos! Clamou o Afonso de Valbom!
- Não senhor! – responderam muitas vozes.
Faltam os da Paiágua, que vêm além na serra.
E quando se reuniram todos os homens de freguesia de Almaceda o Afonso deu a ordem de marcha e a multidão, numa algazarra medonha, começou a movimentar-se em longa bicha pelos atalhos a caminho dos Pereiros, ponto marcado para todos os da revolta.
Quando os de Almaceda chegaram, já lá estava a gente do Violeiro, Tripeiro, Mourelo, Partida e Paradanta.
Era uma massa enorme de gente, passante de mil pessoas, armados de varapaus, roçadoiras, forquilhas e machados.
O Afonso de Valbom mandou fazer silêncio e disse:
- Agora, todos calados até S. Vicente. À entrada da Vila rufam os tambores, tocam os busios, faz-se algazarra de morras aos ladrões e abaixo as contribuições. Fica a gente atrapalhada porque não vos espera.
Quatro rapazes valentes escangalham as portas da Câmara com machados e uma dúzia entra na Repartição da Fazenda, deita cá para baixo toda a papelada e apicha-se-lhe o fogo. Se alguém se quiser opor, prenda-se mas não se tosa.
Depois disto feito as autoridades hão-de querer saber quem queimou a papelada par nos levarem para a cadeia. Reparem bem na resposta que devem dar: - Ninguém viu, ninguém foi, ninguém sabe quem deitou o fogo à papelada.
Entendidos?
Sim, clamou a multidão e se alguém falar tira-se-lhe o chiadeiro …
E a massa enorme pôs-se de novo em movimento. A manhã estava de um frio que enregelava, amortalhada numa neblina que mal deixava ver o caminho da serra.
Os revoltosos, embrulhados nos seus gabões de burel, capus na cabeça, moviam-se como sombras.
A entrada de S. Vicente rompeu um grito terrível. Rufaram os tambores, tocaram os busios, mil vozes confusas gritaram impropérios, a Câmara foi assaltada num momento, e o fogo devorador consumiu a papelada da Repartição da Fazenda.
Ninguém da vila se atreveu a opor-se aos desacatos a não ser o velho Doutor Fabião que, confiando na sua muita autoridade, saiu à rua para impedir o desvario.
Inutilizaram o seu intento quatro serranos que lhe impediram os passos.
A onda seguiu para a tesouraria da Fazenda. Intimado o tesoureiro a apresentar os recibos de cobrança e mais papelada, negou-se. Foi o grito das almas!
Esquecidos, alguns mais exaltados não tiveram mão de si e agrediram o tesoureiro. Houve quem interviesse rápido e não teve consequências de maior a agressão.
Entretanto as portas da Tesouraria cediam aos golpes dos machados e a multidão entrava. Os ânimos chegaram ao rubro de exaltação.
Inquiria-se por todos os lados onde estava o escrivão da Fazenda. Ele era o grande talvez o único responsável. Era necessário que aparecesse ali para dar contas à multidão.
O homem fugiu – diziam uns.
- Não fugiu, que ninguém deu por ele nas saídas da rua.
- Está escondido. Não lhe valeu de nada – diziam outros.
O escrivão da Fazenda António Ribeiro acordou estremunhado aos primeiros alaridos do tumulto e viera à janela, curioso indagar o que se passava.
Ao ouvir as morras à sua pessoa, sentiu calafrios na espinha e transido de medo, fugiu espavorido, pelas trazeiras da Câmara e encafuou-se no aljube.
Ali permaneceu enquanto durou o tumulto e contou depois que um momento houve em que julgou ter chegado à sua última hora e foi quando uns curiosos, espreitando pelas grades o descortinaram, embrulhado a um canto.
Uma voz gritou então: - Rapazes, na cadeia está um homem preso, toca a arrombar a porta e a pô-lo na aragem …
António Ribeiro sentiu uma dor profunda proveniente do embrulho intestinal, aljufrou-se-lhe a fronte de um suor frio e perdeu os sentidos.
Voltou a si, já o tumulto tinha terminado. Apalpou-se para se certificar que estava vivo. Depois notou o estado em que se encontrava!...


Chegara o tumulto ao seu auge. O vinho começara a querer fazer diabrura grossa e a gente de S. Vicente que assistia de longe ao desenrolar dos acontecimentos, começou a temer que a comédia degenerasse em sangrenta tragédia. Foi então que o Padre José de Matos teve a feliz ideia de gritar com voz sonora: RAPAZES, FUJAM QUE AI VEM A TROPA …
Foi o debandar do tumulto e o salve-se quem puder. O Pânico apoderou-se da turba e cada um desmandou em correria louca para fora da vila, galgando encostas e vales a caminho da sua terra.


Passado o tumulto, a gente de S. Vicente reuniu toda no largo da Câmara. Comentavam uns à gargalhada a partida que o Padre José de Matos pregara aos de Almaceda, e outros, indignados, incitavam as autoridades a dar castigo severo à malta dos charnecos que se atrevera a tamanho desacato.
O administrador do Concelho mandou lavrar auto da ocorrência que redundou em parte carregada para os de Almaceda e despachou em macho ligeiro o oficial de diligências com o ofício ao Governador Civil pedindo força armada para castigar e prender os desordeiros.
A tropa chegou no dia seguinte, ao cair da tarde. António Ribeiro, refeito do susto, opinava que se deviam prender todos os charnecos, sem faltar um só, porque todos eram réus de homicídio frustrado.
O Doutor Fabião ponderado e sisudo, opinava que somente se deviam prender os cabeças de motim.


A notícia de haverem resolvido os de S. Vicente a prisão de todos os charnecos que tinham vindo ao barulho, correu veloz por todas as casas e povoações da serra.
Havia cóleras mal reprimidas nas almas dos serranos contra os de S. Vicente e em todos o propósito deliberado de se não deixarem engaiolar, de fugir para a serra, quando a tropa aparecesse.
E veio a tropa e não pilharam ninguém …
No primeiro dia, a tropa, depois de um trabalho de correrias por encostas e vales, só conseguiu deitar a mão a uma dúzia de charnecos – homens achacados pela doença ou estropiados pela idade que não tinham ido a S. Vicente e que não tinham contas a dar à justiça.
Nos dias seguintes foram caçados mais uns tantos e todos saíram de S. Vicente com destino as cadeias de Castelo Branco entre baionetas.
O Almeida Afonso não quisera fugir. Quedara-se em casa à espera dos acontecimentos e quando os militares lhe cercaram casa, apresentou-se voluntariamente, a sorrir, bem convicto que aquilo não valia nada.
Embrulhado no seu gabão de burel entrou na fila de soldados e nem sequer perguntou para onde o levaram.
Quando soube que ia para S. Vicente, esboçou um sorriso escarnilho e não teve mão que não dissesse: preferia ir para Castelo Branco, mas vamos para S. Vicente …
Os de S. Vicente, apertados pelos caciques que não queriam perder a amizade do Almeida Afonso, também não sabiam ao certo quem tinha apichado o fogo. E o processo foi arquivado por falta de provas.


O Afonso nunca mais perdoou aos de S. Vicente aqueles dias no Aljube.
Na primeira oportunidade eleitoral mandou rufar os tambores, arrebanhou toda a gente válida da serra e foi de longada até Castelo Branco, trazer uma representação ao Governador Civil a pedir a desanexação de Almaceda do concelho de S. Vicente.
O caso fez barulho e sabida a notícia, despovoou-se a gente da cidade para o Castelo para ver ao longe a marcha dos charnecos que vinha em algazarra aos vivas e aos morras, em longa bicha de homens a pé e a cavalo.
E assim entraram em Castelo Branco. E estava radiante o Afonso com aquela desforra que tirara dos dias que estivera preso no Aljube de S. Vicente.


O exemplo de S. Vicente pegou. O Sobral do Campo, Tinalhas não queriam ficar em S. Vicente. O Louriçal ruminava há muito tempo a sua incorporação em Castelo Branco.
Estava morto o município de S. Vicente de antiquíssimas e gloriosas tradições.
Aquela revolta dos gabões atirou-lhe a estocada mortal e Almeida Afonso só descansou quando o Ministério Bintzi Branco publicou o decreto de extinção.”

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